Indústria cimenteira

Como hoje conhecemos a freguesia de Maceira, é fruto do empenhamento e esforço denodado de muitos. Sem menosprezar o contributo de todos, seja permitido relevar a acção dos pioneiros da indústria cimenteira: João de Souza Rodrigues Ribeiro, João Henriques Teixeira Guedes e João Luiz de Souza (genro do irmão de João de Souza R. Ribeiro).
 
João de Souza Rodrigues Ribeiro foi o primeiro professor na escola primária de Maceira. Conforme refere o Senhor Cónego Pereira da Costa, na sua Breve Memória da Egreja Parochial de Maceira, o Prof. Rodrigues Ribeiro já tinha começado a investigar e a explorar os jazigos de pedra calcárea, própria para a fabricação de cimentos, muito tempo antes de João H. T. Guedes.
João Henriques Teixeira Guedes, natural de Minde, estudou bem o tipo de pedra existente em Maceira, fazendo-se acompanhar de técnicos e, entre eles, de um engenheiro francês. Após análises laboratoriais em Lisboa e na Alemanha, de que recolheu as melhores informações, decidiu fundar uma empresa de cimentos no sítio da Gândara junto dos jazigos de pedra, em 1891. A sociedade Guedes & Lopes que formou com Frederico de Sequeira Lopes, residente em Lisboa, foi dissolvida, mas João Guedes não desistiu.
 
Mediante contrato de arrendamento, João Guedes montou na Gândara a sua «Fabrica de Cimentos de Maceira», ‘cimentos naturaes’ tipo Portland, cal-cimento e cal hidráulica.
 
Em 1893, pela necessidade de aumentar a produção pois os seus produtos haviam tido excelente aceitação no mercado, e para aproveitamento da energia hidráulica, mudou a sua empresa para a Quinta do Paraíso, junto da Igreja Matriz.
 
Para isso, lavrou escritura de arrendamento da casa de habitação, lagar (vinho e azeite), moinhos, azenha e terrenos anexos, aos seus proprietários Augusto Pereira da Costa e esposa, Filippa Marcia Cesara Marcelly Pereira da Costa, provavelmente familiares do Senhor Cónego Pereira da Costa. 
 
O empresário J. Guedes publicou, em 1900, um fascículo editado na Typographia Guedes, sediada em Leiria e propriedade do seu irmão Diamantino, sobre a Fábrica de Cimentos de Maceira, apresentando os seus produtos e fazendo um estudo comparativo destes com os cimentos franceses, ingleses, italianos e austríacos. A sua produção anual, ao tempo, era de três milhões de quilos (3.000 toneladas).
 
João Luiz de Souza, na sequência das investigações e exploração de jazigos de pedra pelo Prof. João Rodrigues Ribeiro, que era irmão do seu sogro e também professor, montou uma fábrica de cimentos na cave da sua casa, com moinhos movidos pela água da ribeira que por ali passava, não longe da Quinta do Paraíso.
O cimento utilizado na construção da capela de Santo António, da Costa de Baixo, foi produzido nesta fábrica de João Luiz de Souza, conforme o testemunho (Agosto de 2011) do Prof. José Ribeiro de Sousa que recorda as imagens que lhe ficaram das deslocações com o pai àquele local. 
 
Durante a sua infância, acompanhou o pai à primitiva fábrica de J. Luiz de Souza para transporte, em carroça de tracção animal, do cimento para a futura capela. «Lembro-me, diz o Prof. Ribeiro de Sousa, de ver uns moinhos ao fundo da cave a triturarem a pedra que caía em pó nos grandes recipientes que o recebiam, já feito cimento.»  Recorde-se que a iniciativa e despesas da construção deste local de culto, na Costa de Baixo, pertenceram ao tio do Prof. Ribeiro de Sousa.
 
Pelos anos quarenta do século XX, ainda se podiam ver as ruínas de fornos de pedra no início da actual estrada da Marinha Grande, após a rotunda das Mangas. Destes fornos, a pedra seria transportada para os referidos moinhos no Arnal. É credível que estes fornos pertencessem a João Luiz de Souza, uma vez que o Cón. Pereira da Costa menciona a Gândara como local de exploração de matéria prima e montagem de estruturas «em grande escalla» para a fábrica deste empresário, a quem chama «corajoso filho desta freguezia». Testemunhos orais de pessoas que viveram nesse tempo vão no mesmo sentido. 
 
Foi na cave deste edifício, construído por João Luiz de Souza, que funcionou a empresa de cimentos por si fundada.
 
Entre João Luiz de Souza e João Henriques Guedes parece ter sido formada uma sociedade cimenteira, fundindo as duas empresas inicialmente criadas por cada um dos intervenientes. 
Não foi brilhante o evoluir desta sociedade. Por volta de 1928, a empresa foi vendida a Henrique Sommer que não honrou os seus compromissos por ter surgido a grande crise económica de 1929. Ao ser confrontado pelos antigos empresários e donos da firma, Sommer terá respondido: «É a pouca sorte!» Parece ter sido esta a origem do nome pelo qual esta empresa começou a ser conhecida e nomeada pelo povo – ‘Fábrica da Pouca-Sorte’ ou simplesmente ‘Pouca-Sorte’, mais tarde adquirida por J. Alvarez.
 
Nos finais da segunda década do século XX, pela fama da qualidade dos jazigos marno-calcáreos de Maceira, uma equipa de engenheiros alemães, sob a orientação do Eng. José Osório da Rocha e Melo e do empresário Henrique Araújo Sommer, na sequência de emissários enviados alguns anos antes para observar os referidos jazigos de pedra, confirmou não só a qualidade das matérias-primas como a enorme quantidade das mesmas. Foram os primeiros passos da florescente Empresa de Cimentos Liz, liderada depois pelo Eng. António Sommer Champalimaud, sobrinho do fundador e empresário Henrique Sommer. Após a nacionalização da empresa em 1975, ficou a ser conhecida por Cimpor.
A Empresa de Cimentos Liz, na concepção dos seus fundadores e organização da sua estrutura, bem como nas diversas componentes da sua evolução, exerceu grande influência na comunidade de Maceira.
 
Em contraposição à Fábrica da Pouca Sorte, a nova empresa de Cimentos Liz era conhecida como a «Empresa» ou a «Fábrica», de que Henrique Sommer e o Eng. Rocha e Melo se tornaram figuras míticas. Ser operário na Cimentos Liz era o grande sonho de muitos maceirenses, pelo estatuto social que isso implicava.
Ao contrário do que aconteceu na Marinha Grande, não houve greves em Maceira. Tal deve-se ao estilo pacífico e dialogante da maioria do povo, mas também às condições privilegiadas dos operários, sobretudo os da Empresa Cimentos Liz. Não eram apenas os ordenados, superiores à maioria dos praticados por outras firmas, mas o sistema de protecção e promoção cultural, desportiva, sanitária e até religiosa, envolventes, que distinguiam esta empresa cimenteira.
 
Agostinho de Campos, professor universitário e político português que faleceu em 1944, chamou a essa estrutura empresarial em Maceira «o arrabalde da utopia».